Mas afinal, o que...

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Mas afinal, o que é ser bilíngue


Mas afinal, o que é ser bilíngue?

Pensando na raiz da palavra, pode-se de imediato concluir que ser bilíngue é ter proficiência total em duas línguas, ou seja, fazer uso de duas línguas com a mesma fluência. Contudo, não existe um consenso entre os teóricos acerca de uma definição simples e concisa sobre as aptidões de um sujeito bilíngue. Habilidade, competência, proficiência e performance são termos usados de forma diversa pelos estudiosos do bilinguismo. Não existe um uso padrão desta terminologia (Swain, 1992). A questão central é, como pode ser visto adiante, que existe uma série de dimensões a serem consideradas quando se pensa em bilinguismo.

Primeiro, coloca-se uma distinção entre competência e uso da língua. Ou seja, a pessoa pode falar duas línguas, mas na verdade só usa uma delas. Ou então, usa regularmente as duas, mas apresentando maior fluência em uma delas. A noção de uso, portanto, está ligada ao significado real da língua para a pessoa.

Segundo, a proficiência em uma língua é considerada sob quatro diferentes aptidões: fala audição, leitura e escrita. Na maioria das vezes, uma pessoa apresentará maior fluência na escrita e menor na fala, uma melhor leitura e menor compreensão auditiva. Ou então, uma melhor compreensão auditiva e menor leitura. Ou seja, normalmente existe uma variação em proficiência dentre as quatro aptidões.

Terceiro, poucos bilíngues têm equivalente proficiência nas duas línguas. Uma das línguas tende a ser mais desenvolta do que a outra, tornando-se o que se chama de língua dominante. Mas esta não é necessariamente a língua materna. A pessoa bilíngue faz uso das línguas por diferentes razões e contextos. Uma língua abre este espaço para a entrada no universo de uma nova cultura, com suas próprias características e particularidades. O modo como se expressa uma idéia, tão somente, já demonstra o modo de pensar daquela cultura. Usam-se muitas palavras para se expressar uma ideia? Compõe-se uma frase na mesma ordenação de idéias em ambas as línguas? Desta forma, revelam-se as diversidades culturais de diferentes povos. O universo do sujeito bilíngue amplia-se, portanto é comum que este indivíduo sinta-se mais confortável em falar uma língua em um contexto, e a segunda em um outro.

Por fim, ao longo do tempo, as competências em uma língua podem mudar, devido às circunstâncias de vida do momento, como uma mudança de país. Em se tratando de pessoas, estas estão inseridas em contexto socais, portanto o estudo do bilinguismo tanto social (grupal) quanto individual é produzido em uma realidade viva e a todo momento mutante.

Portanto, a clássica definição de bilinguismo de Bloomfield (1933) (apud Baker, 1996), “o controle que se assemelha a nativo de duas ou mais línguas” (tradução livre), é muito simplista e até vaga. Simplista, já que, como vimos, existe uma série de dimensões a serem consideradas ao pensar-se neste fenômeno vivo que é o bilinguismo.

Vaga, já que o que se quer dizer com controle neste contexto? Acredito que aponte para a proficiência, que por sua vez é considerada sob outras dimensões. Como manter o mesmo “controle” de fala, audição, escrita e leitura em dois idiomas diferentes? Difícil imaginar considerando que algumas pessoas são mais visuais, outras mais auditivas, etc.

São muitos os caminhos para se atingir o bilinguismo, e, como já se pôde notar, é primordial que se observe o contexto no qual o sujeito está inserido. Casa, rua, comunidade, educação infantil, educação fundamental, ensino médio, curso de línguas, etc. O sujeito insere-se em uma combinação de ambientes: primeiro de tudo, o familiar, mas em seguida, abrindo-se para o social; bairro, escola e comunidade. A segunda língua pode estar inserida em um ou mais destes ambientes, em épocas distintas da vida do aprendiz. Pode aparecer com significado real, legítimo; ou desprovida de contexto real, como é o caso do curso de línguas. Assim, o percurso de aprendizagem a ser trilhado pelo indivíduo pode ser um dentre muitas escolhas, e inúmeras são as questões envolvidas em cada uma destas.

No caso do bilinguismo na infância, existe uma importante distinção entre duas formas: o bilinguismo simultâneo e o sequencial. O primeiro se dá quando a criança adquire fluência nas duas línguas simultaneamente, ou seja, na fase inicial da vida. O exemplo mais comum desta circunstância é quando a mãe é de uma ascendência e o pai de outra, portanto cada um fala com a criança em uma língua.

Leopold (1939 a 1949) foi o linguista que melhor conduziu o estudo acerca do bilinguismo, ao estudar o caso de sua filha, crescendo numa família bilíngue – bilinguismo simultâneo (inglês e alemão). Analisou o desenvolvimento do vocabulário, sistema de sons, e combinação de palavras e frases. Nos primeiros dois anos, constatou que Hildegard, sua filha, não separava as duas línguas. O vocabulário de ambas as línguas era geralmente misturado em suas pequenas frases. Foi aos três anos que se observava claramente como se dirigia ao seu pai em alemão, e em inglês à sua mãe. Algumas palavras de alemão eram ainda usadas nas frases em inglês e vice-versa. Leopold sugeriu, contudo, que a razão da pequena mistura ainda aos três anos das duas línguas, ocorria devido a uma simplificação na produção da língua. Do ponto de vista da criança, uma comunicação eficiente envolvia uma pequena mistura entre as línguas.

Um aspecto interessante sobre os estudos de Leopold é a sua descoberta da dominância variante das duas línguas. Quando Hildegard mudou-se para a Alemanha, seu alemão ficou mais forte. No entanto, quando voltou aos Estados Unidos e começou a frequentar a escola, o inglês tornou-se dominante. Na adolescência relutou em falar alemão, e esta língua tornou-se mais fraca. Sua irmã menor entendia alemão , mas falava muito pouco alemão com Leopold. Na infância, era vista como “bilíngue passiva”. Aos 19 anos visitou a Alemanha e pôde mudar de passiva no alemão para produtora, conseguindo conversar com relativa fluência na língua.

O segundo exemplo de bilinguismo é o sequencial: a criança fala uma língua em casa e aprende outra na escola. No caso da Puzzle educação infantil bilíngue, a grande maioria das crianças é de família brasileira, portanto fala português em casa e na comunidade onde se insere, e na escola tem um período em inglês e outro em português. Portanto estão inseridos na realidade do bilinguismo sequencial.

McLaughlin (1984, 1985) coloca uma divisão entre aquisição simultânea e aprendizado sequencial da segunda língua aproximadamente aos 3 anos. Krashen (1977, 1981, 1982, 1985) distingue o termo adquirir e aprender, vendo o primeiro como uma aprendizagem natural, em contrapartida à maior formalidade da aprendizagem. Nesta visão, adquire-se a segunda língua até os 3 anos da mesma forma que a primeira, vivenciando-a, enquanto que após os 3 tenha que ocorrer uma maior formalidade na aprendizagem. Maior formalidade, no entanto, não significa criar situações descontextualizadas de significado, pelo contrário, veremos adiante como é vital que haja significado real nas situações de ensino. Maior formalidade neste caso se refere a situações didáticas planejadas com o objetivo de desenvolver especificamente a oralidade da criança.

Quando a criança adquire a segunda língua até os 3 anos de idade, Swain (1972) denomina esta forma de bilinguismo “bilinguismo  como a primeira língua”, pela natureza totalmente informal deste tipo de aprendizagem, resultando em duas línguas fluentes.

Bibliografia

BAKER, C. Foundations of Bilingual education and bilingualism. Great Britain: Multicultural Matters, 1996.

KRASHEN, S. D. Principles and practice in second language acquisition. Hemel Hempstead: Prentice-Hall International, 1987.