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Alguns modelos de educação bilíngue


Alguns modelos de educação bilíngue

Muitos têm a ilusão de que a educação bilíngue é fruto do século XX. É interessante situar o bilinguismo e a educação bilíngue historicamente, a fim de entender porque e como surge como necessidade. As primeiras escolas bilíngues surgem na Irlanda e no País de Gales a partir de 1921. No entanto, de uma forma ou de outra, a educação bilíngue existe há mais de 5000 anos (Mackey, 1978).

Segundo E.G. Lewis, o bilinguismo e o multilinguismo podem ser vistos como “uma característica remota das sociedades humanas, e o multilinguismo uma limitação induzida por algumas formas de mudança social, desenvolvimentos culturais e etnocêntricos” (tradução livre, apud Baker, 1996, p. 22). Ou seja, ao pensar nos contextos sociais das sociedades remotas, esbarrava-se nas diferenças comunicacionais entre povos que conviviam, e de soluções encontradas. Existia um real e legítimo motivo para ser bilíngue nos tempos passados, portanto, de um jeito ou de outro, demonstrando que alguma forma mesmo que informal de educação bilíngue existe há muito mais do que um século.

Pensar em bilinguismo hoje nos Estados Unidos, na Inglaterra, no Canadá ou no Brasil mostra contextos bastante diversos socialmente. Nos Estados Unidos como na Inglaterra, a maior parte dos estudos de bilinguismo é relativa a minorias étnicas no país, e, de certa forma, à margem da sociedade. Nestes casos, a segunda língua é a língua materna destas famílias normalmente imigrantes ou de ex-colônias.

Ou seja, o objetivo do bilinguismo neste contexto, é o acolhimento desta comunidade à maioria social, incluindo esta comunidade na sociedade. Em alguns casos, pode estar associado à preservação de uma identidade, tanto étnica quanto religiosa. Raramente o bilinguismo nestas culturas associa-se ao aprendizado de uma outra língua de prestígio social e aproximação a uma nova cultura.

O Canadá, como país de cultura já bilíngue, tem o bilinguismo vivo nas suas ruas, casas, restaurantes, etc. Portanto, a escola é mais um contexto de aquisição natural das duas línguas simultaneamente. O bilinguismo não só está dentro da sala de aula, como da escola toda, da cidade e do país.

No Brasil, a conotação do estudo de bilinguismo é completamente diferente, devido ao contexto social em que se dá. O bilinguismo é procurado por uma minoria, não uma minoria de origem humilde, desfavorecida, mas pelo contrário, muito privilegiada, buscando uma eficiente comunicação com o mundo externo.

Esta ideia está associada com uma preservação e até fortificação da posição de grupos na sociedade, através do diferencial que a aprendizagem fluente da segunda língua representa, juntamente com sua cultura. Está presente uma ideia de prestígio, de status. O mercado de trabalho exige cada vez mais uma boa fluência no inglês. O fato de adentrar em uma outra cultura através da aprendizagem da língua oferece também ao sujeito uma maior adaptabilidade a situações diversas: mudanças de área de trabalho, região do país, país, mudanças de cunho pessoal, etc.

No entanto, quase esquecemos da comunidade indígena brasileira, que não é composta de um só povo, mas sim de muitos: com costumes próprios, habilidades, tecnologias, atitudes estéticas, organização social, crenças religiosas e filosóficas peculiares. Falam-se no Brasil, aproximadamente 170 línguas indígenas, por aproximadamente 215 grupos tribais. Como todas as demais, as línguas dos povos indígenas do Brasil são inteiramente adequadas à plena expressão individual e social no meio físico e social em que tradicionalmente têm vivido estes povos. O Brasil pode então ser considerado um país multilíngue?

Reconhecemos a multilinguagem brasileira a partir das comunidades indígenas. No entanto, os povos indígenas fazem parte de uma cultura minoritária no país, de certa forma dominada e isolada. Esta realidade é muito diversa daquela em que atuamos, no maior centro urbano brasileiro.

Um número considerável de escolas em São Paulo faz parte do que hoje se denomina educação bilíngue. É fundamental, contudo, reconhecer educação bilíngue como um termo bastante amplo, o que faz com que escolas com os mais variados objetivos linguísticos e culturais possam estar enquadrados nesta abrangente nomenclatura.

Um dos modelos de educação bilíngue bastante presente em São Paulo é a chamada “escola internacional”. Surge em diversos países com o intuito de proporcionar um currículo adequado às necessidades das crianças em trânsito. Muitas vezes são diplomatas ou diretores de empresas, mudando de país por motivo profissional. Estas escolas têm o objetivo de proporcionar uma educação seguindo os princípios educacionais do país de origem, tentando, portanto, estabelecer um padrão tanto curricular como cultural. Assim, facilita-se o trânsito da criança entre países.

As escolas americanas seguem o currículo norte americano, as inglesas, o inglês, e assim por diante. Os professores destas escolas são predominantemente estrangeiros, especialmente recrutados pela escola. Sendo o currículo principal seguido, assim como a nacionalidade dos professores de outra cultura que não a do país em que se insere, esta cultura é dominante na escola. Para serem reconhecidas no MEC, estas escolas seguem também o currículo nacional brasileiro, paralelamente, em menor carga horária. Pode haver a escolha de estudo de uma terceira ou até quarta língua, como o francês e o espanhol. Estas são ensinadas de modo mais formal, como ensino de língua estrangeira.

Há 30 anos, não era comum o ingresso de crianças de famílias brasileiras em escolas bilíngues. Elas eram freqüentadas em sua maioria por crianças estrangeiras. Este cenário, contudo, foi mudando. Um número crescente de crianças brasileiras ingressou em escolas internacionais – seus pais atraídos pelo perfil bicultural ou até multicultural da instituição, e/ou pela fluência da segunda língua.

Cresce o número de escolas bilíngues por imersão, como é o caso da Puzzle educação infantil bilíngue, onde segue-se o currículo brasileiro, e valoriza-se a cultura do país onde está inserida, no caso o Brasil. Os funcionários não precisam ser estrangeiros, contudo grande parte destes bilíngues. Com isso, carregam em suas vivências a cultura brasileira e o jeito de ser do nosso país. A escola tem uma grande carga horária na segunda língua, no caso, o inglês, e a aprendizagem do segundo idioma se dá na vivência de situações reais e significativas.

Ferguson, Houghton & Wells (1977) citam alguns exemplos de objetivos da escola bilíngue que se encaixam na realidade paulistana:

“Propiciar a comunicação com o mundo externo,

Proporcionar aptidões lingüísticas vendáveis, dando apoio à posição no mercado de trabalho e status,

Fortalecer grupos de elite e preservar sua posição na sociedade,

Aprofundar a compreensão de língua e cultura” (tradução livre).

A educação bilíngue busca uma comunicação eficiente com o mundo. À medida que as distâncias e conexões entre os países se modificam a cada momento, o indivíduo que cresce bilíngue está inserido numa realidade de ensino onde a segunda língua já carrega em si uma outra cultura, ampliando seu universo cultural, e o modo como enxerga as coisas. A relação do sujeito com línguas é diferente: natural, prazerosa. Acredito que nem se possa ver mais o bilinguismo como um diferencial, mas sim uma aptidão para o mundo globalizado. Como o inglês tornou-se a segunda língua falada em grande parte do mundo, é natural que se busque uma fluência no inglês, privilegiando uma troca eficiente entre culturas. A relação com outras línguas neste entendimento pode aparecer mais tarde, talvez menos de forma utilitária, e mais cultural e prazerosa.

À parte das diferenças culturais e curriculares entre escolas internacionais e bilíngues por imersão, ambas têm como objetivo formar indivíduos com boa fluência em dois idiomas.

Fonte:

BAKER, C. Foundations of bilingual education and bilingualism. Great Britain: Multilingual Matters, 1996.